Feridos em nome de Deus


Feridos em nome de Deus
(Editora Mundo Cristão)

Marília Camargo mostra seu inconformismo com a igreja evangélica ao explorar a temática das decepções causadas por lideranças prepotentes.


Se você achou que é publicidade de um livro, errou. Mas, se achou que é propaganda, acertou. Não é publicidade, pois não tenho interesse comercial. É propaganda, pois anseio que as afirmações corajosas publicadas pela autora desse livro tenham a devida repercussão e influenciem positivamente, trazendo mudanças na relação entre líderes cristãos - leia-se pastores - e membros das igrejas.

Ainda não li o livro, mas fiquei atônito ao ler esta reportagem na revista Época, edição nº 580, também disponível online. Verifiquei também o blog dedicado ao livro. Estes dois sites considero como uma síntese do polêmico tema abordado e baseado neles está o meu comentário.

Não há como discordar, em termos gerais, do que a autora expôe. Há abusos. Há excessos. Há idolatria. Há bajulação. Há hipocrisia.

Em contrapartida, há chamada, há dedicação, há talento, há dons espirituais, há unção, há poder, há visão, há vidas transformadas por Deus.

Não estou sobre "o muro". Sou contra a generalização, seja ela positiva ou negativa. Há pontos a serem exaltados. E há algumas generalizações a serem corrigidas.

"A igreja evangélica está doente e precisa de uma reforma. Os pastores se tornaram intermediários entre Deus e os homens e cometem abusos emocionais apoiados em textos bíblicos."

Qualquer evangélico com o mínimo de bom senso discordará dessa frase sensacionalista. A igreja não está doente. Há igrejas doentes. Os pastores não são intermediários. Há pastores intermediários... Apesar da autora dizer na entrevista, que "Não quero que haja generalizações, porque há bons pastores e boas igrejas", a entrevista está repleta de generalizações.

"É a intromissão radical do pastor na vida das pessoas. Um exemplo: uma missionária que apanha do marido sistematicamente e vai parar no hospital. Quando ela procura um pastor para se aconselhar, ele fala assim para ela: “Minha filha, você deve estar fazendo alguma coisa errada, é por isso que o teu marido está se sentindo diminuído e por isso ele está te batendo. Você tem de se submeter a ele, porque biblicamente a mulher tem de se submeter ao cabeça da casa. Então, essa mulher, que está com a autoestima lá embaixo, que apanha do marido - inclusive pelo Código Civil Brasileiro ele teria de ser punido - pede um conselho pastoral e o pastor acaba pisando mais nela ainda. E ele usa a Bíblia para isso."

Coloque-se no lugar de alguém que vê no seu pastor a esperança de solucionar um problema tão terrível e recebe tal resposta. Primeira reação: "não é com a filha dele." Por que não voltar ao "antigo" e infalível método da oração? Por que não voltar ao "antigo" e infalível método da humildade, da dependência de Deus? "Minha filha, eu não tenho uma resposta para você agora, mas vou orar, e Deus nos orientará." Pode até não dar "IBOPE", mas traz solução.

"As igrejas que estão surgindo, as neopentecostais, e não as históricas, como a presbiteriana, a batista, a metodista, que pregam a teologia da prosperidade, estão retomando a figura do “ungido de Deus”."

Pode parecer "dor-de-cotovelo", mas não é. É inadmissível citar, por exclusão, a Igreja Evangélica Assembleia de Deus, como uma entre as pentecostais - ou neopentecostais - que pregam a teologia da prosperidade. Nenhuma delas pode ser excluída, mas nenhuma pode ser também incluída em sua totalidade.

"Assim como existe a onipotência pastoral, existe a infantilidade emocional do rebanho... O pastor virou um oráculo. É mais fácil ter alguém, um bode expiatório, para pôr a culpa nas decisões erradas tomadas."

Nem sempre é infantilidade. Às vezes, testa-se o pastor. Ouvi um caso em que houve uma briga de casal. Alguns irmãos chegam para o pastor e dizem: "Pastor, fulano quebrou o nariz da esposa. O senhor tem que ir lá agora. Tem que discipliná-lo." O pastor não foi. Dias depois, chega o casal, a esposa com o nariz quebrado e diz: "Pastor, querem acabar o nosso casamento. Estão acusando o meu marido. Eu levei uma queda e quebrei o nariz." E se o pastor tivesse se envolvido... Manchete do jornal: "Pastor ouve falsas acusações e acaba separando casal cristão."

"Eu vi casamentos se desfazer, porque se mantinham em bases ilusórias. Vi também pessoas dizendo que fazer terapia é coisa do Diabo. Há pastores contra a terapia que afirmam que ela fortalece a alma e a alma tem de ser fraca; o espírito é que tem que ser forte. E dizem isso supostamente apoiados em textos bíblicos."

Casamento. Acredito que seja o assunto recordista entre os problemas pastorais. Pior se o pastor foi favorável ou contra tal casamento. "Eu acho lindo este casal de noivos. Foram feitos um para o outro. Foi Deus que fez esta união." Casam-se. Separam-se em três meses. Além de dar satisfação às famílias, este pastor terá que rever o conceito de Deus.

Quanto à terapia, imagine a seguinte cena: um casal procura um pastor para falar de problemas conjugais. O pastor ouve, pondera algumas questões e diz: "Meus filhos, vocês estão precisando de tratamento psicológico." Retira um cartão do bolso: "Se precisarem, estou à disposição para ouvi-los, como psicólogo." Ou seja, "terapia não é mais coisa do Diabo".

"Hoje o fiel se relaciona com o Divino para as coisas darem certo. Ele não se relaciona pelo amor. Essa é uma das grandes distorções."

O que nos diz a Bíblia? "Que ameis ao SENHOR vosso Deus, e andeis em todos os seus caminhos, e guardeis os seus mandamentos, e vos achegueis a ele, e o sirvais com todo o vosso coração, e com toda a vossa alma." (Josué 22.5)

"O fiel sente uma grande gratidão por aquele que o ajudou a mudar sua vida para melhor. Ele se sente devedor do pastor e começa, então, a dar presentes. O fiel quer abençoar o líder porque largou as drogas, ou parou de beber, ou parou de bater na mulher, ou porque arrumou um emprego e está andando na linha. E começa a dar presentes de acordo com suas posses. Se for um grande empresário, ele dá um carro importado para o pastor. Isso eu vi acontecer várias vezes. O pastor, por sua vez, gosta de receber esses presentes. É quando a relação se contamina, se torna promíscua. E o pastor usa a Bíblia para dizer que esse ato é bíblico. O poder está no uso da Bíblia para legitimar essas práticas."

Esta gratidão do fiel não há quem possa esfriar. Ela é legítima. Entendo que o cuidado de discernir as intenções é exclusivo do pastor. Ele é quem deve perceber o limite - tênue - entre reconhecimento, consideração, e barganha, propina.

"Desconfie de quem leva a glória para si. Um conselho é prestar atenção nas visões megalomaníacas. Uma das características de quem abusa é querer que a igreja se encaixe em suas visões, como quere ganhar o Brasil para Cristo e colocar metas para isso. E aquele que não se encaixar é um rebelde, um feiticeiro. Tome cuidado com esse homem. Outra estratégia é perguntar a si mesmo se tem medo do pastor ou se pode discordar dele. A pessoa que tem potencial para abusar não aceita que discorde dela, porque é autoritária. Outra situação é observar se o pastor gosta de dinheiro e ver os sinais de enriquecimento ilícito. São esses geralmente os que adoram ser abençoados e ganhar presentes."

"Deus confiou apenas a mim esta visão. Eu serei o canal de benção para esta nação." A modéstia realmente é a principal virtude deste pastor. Medite em: "Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento." (I Coríntios 3.6,7)

Há pastores que, após anos e anos de dedicação, suor e labuta, conseguem comprar a sua casa, seu carro, enfim, ter uma vida financeira mais estável. Entendemos que estes homens não tem vício, não esbanjam, tem apenas uma família, são controlados, ou seja, sua renda é abençoada por Deus. Há aqueles que, após anos de vida profissional secular, são chamados para trabalhar na Obra de Deus, trazendo, assim, os recursos que angariou nestes anos de vida. Estes dois grupos não podem ser alvo de questionamento.

O problema é aquele que o seu padrão de vida, além dos imóveis, carros, etc, é incompatível com o seu salário. "Ah, meu carro foi presente! Minha casa? Presente!" Receba o presente, mas deixe explícito quem deu. Melhor ainda, sem subterfúgio, faça-o oficialmente.

Receita para este e demais casos: "Livrai-vos de toda a aparência do mal. E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso SENHOR Jesus Cristo." (I Tessalonicenses 5.22,23)

3 comentários:

  1. Pr. Cleudimar Lima20 de julho de 2009 10:32

    Emmanuel, o artigo é bem interessante; na verdade tudo que a nobre escritora comenta tem muito a ver com o perfil de muitos pastore e muitas igrejas. Eu estive lendo a entrevista dela na revista EPOCA, e pude perceber que ela é mais uma daquelas que não gosta de submeter-se as autoridades constituida, no entanto é bem verdade que não podemos dirigir rebanho como se fosse nossa propriedade particular,pra isso é preciso ter carater, personalidade, qualidades que Paulo as diz muito bem: I Tm. 3:1/7,mas vamos em frente buscando sempre o melhor geito de conduzir este povo ao ceu, pois pra isto fomos chamados. Paz do Senhor, medite 1tm.4:13/16

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  2. É espantoso como as pessoas que conhecem profundamente as escrituras bíblicas são capazes de distorcer e manipular a verdade, criando um cenário distorcido onde as bênçãos são banalizadas e tidas como sinônimos de reações a atitudes monetárias.

    A igreja precisa de uma reforma sim, porém é ainda mais que isso, a igreja precisa de um renascimento.

    Sei que é impossível que a instituição renasça por completo, mas sei que esse renascimento pode ser singular. Pessoas como nós devemos aplicar as verdades em nossas vidas e plantar a transformação que vivemos (Ou viver a Transformação que plantamos).

    Certa vez ouvi esta frase:

    Um livro incendeia um homem, um homem incendeia sua geração.

    Hoje nós podemos alterar a palavra “livro” por diversas outras como blog, post etc.

    Vamos usar estas ferramentas que temos em mãos para lutar contra a mentira e o pecado na igreja, com certeza o Pai no recompensará.

    Deixo o link para meu blog, aguardo uma visita.

    Fiquemos na Graça de Deus.

    http://cybercruz.blogspot.com/

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  3. Deus abençoe ao Pr. Cleudimar Lima e ao amado Ivar A. Queiroz. Concordo com ambos. A minha maior preocupação sobre este tema é a generalização tão bem captada pelos amados.

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